O dinheiro ainda é o rei, mas os pagamentos digitais estão avançando e ganhando terreno. Isso obriga os bancos a se modernizarem e a fornecerem soluções inovadoras 100% digitais

Por Marcelo Fondacaro, CCO da Veritran

Dinheiro ainda é o meio de pagamento preferido para latino-americanos. Mas esses dados escondem o fato de os clientes usarem suas cédulas, porque – na maioria dos casos – não encontraram alternativa melhor.

As instituições financeiras ainda têm um longo caminho a percorrer para trazer soluções digitais em uma escala que realmente atenda à demanda da região, principalmente, nos segmentos de pessoas da base da pirâmide e pequenas e médias empresas.

Anteriormente, tínhamos destacado como os costumes das novas gerações e a pandemia alteraram a relação das pessoas com suas finanças e como as alternativas virtuais estão cada vez mais sendo adotadas – e exigidas.

Com base nisso, é preciso conhecer as oportunidades que a retração de caixa e o destaque da digitalização de pagamentos abrem para os bancos.

  1. Ecossistema de pagamento para alcançar mais usuários

Para expandir sua presença, as entidades devem construir e fortalecer ecossistemas de pagamentos, ou seja, o circuito onde o dinheiro é trocado digitalmente em troca de produtos e serviços.

Isso começa com a massificação do uso de carteiras digitais.

As carteiras permitem estar, literalmente, nas mãos do cliente. E, simultaneamente, o uso repetido dessas ferramentas para, por exemplo, pagar impostos ou serviços básicos (como luz ou água), começa a deixar uma marca e a gerar um tracking transacional que enriquece os perfis.

À medida que cresce o acesso das pessoas aos smartphones, aumenta a possibilidade de os bancos se aproximarem de seus clientes, por meio de uma maior oferta de produtos e serviços de poupança, crédito e investimento.

Embora o aplicativo móvel de um banco possa potencialmente se tornar um superapp     , você deve começar com uma carteira simples e funcional para todas as faixas etárias e, a partir dessa base, construir um ecossistema de pagamentos robusto.

As transações de pessoa a pessoa (P2P) gratuitas são algo que já foi feito. Mas ainda há um impulso adicional para pagamentos digitais de custo zero para pequenas empresas e empreendedores.

Outra funcionalidade que requer mais desenvolvimento é a interoperabilidade das carteiras. Os bancos não devem fechar as portas de seus produtos, pelo contrário, devem abri-las e promover a amplitude do ecossistema.

  1. O regulador como aliado

Ao contrário de uma fintech, as entidades têm uma carga maior de se reunir com os reguladores. Porém, longe de perceber isso como uma limitação, fazer inovações que beneficiem os usuários dentro de um marco regulatório, traz consigo um valor incalculável: a confiança.

Os usuários estão mais dispostos a usar soluções apoiadas por grandes instituições, desde processos de onboarding 100% digitais ou pagamentos eletrônicos.

Nesse sentido, iniciativas atraentes como o sistema de Transferências 3.0 que o Banco Central da República Argentina está implementando para promover a interoperabilidade das carteiras digitais através de códigos QR, assim como CoDi do Banco do México, para fazer pagamentos virtuais imediatos e sem custo, também com QR.

Além disso, o ritmo de adoção demonstrado em seu primeiro ano pelo Pix no Brasil – onde 62% da população adulta “fez um Pix – demonstra o potencial desses sistemas onde reguladores e instituições privadas se unem.

Apoiar esses tipos de políticas ajuda os reguladores a modernizarem seus parâmetros, enquanto que aumentar o acesso a novas tecnologias é útil para expandir a bancarização na região.

  1. Adote um banco aberto

A digitalização de pagamentos gera dados que acabam beneficiando tanto o cliente quanto os agentes financeiros, uma vez que o usuário aprende a reconhecer como seu cada traço registrado nos canais digitais, enquanto o banco pode utilizar essas informações para conhecê-lo melhor.

Mas isso requer que os diferentes atores compartilhem infraestrutura tecnológica e de informação, daí a promoção da implementação do open banking em países como México e Brasil.

Em princípio, compartilhar dados não parece atraente para os bancos, mas a verdade é que está comprovado que cada espaço que se abre gera mais negócios, principalmente, quando o acesso aos bancos ainda é limitado no mundo: 69% dos adultos em todo o mundo têm uma conta em um banco ou fintech, de acordo com o Banco Mundial.

Existem oportunidades para todos e o papel do banco se especializará no fornecimento de tecnologia a diversos atores voltados para o desejo de incorporar serviços financeiros como empréstimos pessoais ou hipotecas, por exemplo.

  1. Massifique pagamentos invisíveis

Simplificar os pagamentos ajuda a criar uma melhor experiência do usuário (UX) e promove a adoção de canais digitais, mas menos atrito requer mais desenvolvimento tecnológico.

Pagamentos invisíveis são aqueles em que o usuário não tem conhecimento de uma determinada ação ao efetuar uma compra. Isso já foi desenvolvido por grandes empresas de tecnologia, como Uber e Amazon, mas o banco ainda não assumiu a liderança na expansão deste sistema e deixando para trás os processos manuais.

Um pensamento final: a retração do dinheiro e a preferência pelos canais digitais não é a morte do primeiro e a vitória do segundo. Quando apareceu o cheque disseram que o dinheiro iria desaparecer e, quando apareceram os cartões, que o dinheiro e o cheque iriam desaparecer. Agora, os pagamentos móveis e as carteiras digitais surgiram e a coexistência continua – mesmo com o bitcoin.

O banco deve estar preparado para atender a todas essas necessidades de pagamento atuais e futuras.

Andy Tran