Pagamentos em prestações digitais vêm ganhando força nos mercados financeiros dos EUA e da América Latina

Entre os novos formatos de crédito que aparecem nas finanças digitais, o chamado Buy Now, Pay Later (BNPL, na sigla em inglês para compre agora, pague depois) está surgindo como uma solução acessível, atraente e conveniente, estrategicamente disponível no momento da compra.

O BNPL serve para adiar os pagamentos de um produto em prestações mensais sem gerar juros, se pago a tempo, ou gerando pagamentos em atraso, inadimplentes competitivos. É processado completamente digitalmente no momento da compra, desde o onboarding      do cliente, até a aplicação, a aprovação e o pagamento de parcelas.

Através deste sistema, os comerciantes físicos e online oferecem aos seus clientes a possibilidade de adiar as compras como meio de pagamento. Eles podem fazer isso diretamente, embora, geralmente, sejam habilitados através de fintechs e provedores de pagamento eletrônico que emprestam a tecnologia do produto e realizam verificações leves nas agências de crédito para aprovar -ou não- o financiamento.

A compra é financiada com um número específico de parcelas. Não requer nenhum tipo de serviço ou produto adicional (nenhum cartão é contratado) e, uma vez pagas as prestações, a dívida termina.

Neste sentido, compete com as compras parceladas sem juros de cartões de crédito, mas é diferente, na medida em que é mais flexível quando se trata de contratar e não gera anuidades, comissões ou quaisquer outros encargos pelo seu uso, como é o caso dos cartões plásticos.

Recentemente, esta tendência tem experimentado um rápido boom, devido aos confinamentos e ao aumento das compras eletrônicas. Os usuários encontraram valor nesta solução, porque ela pode ser processada em questão de minutos e porque é implantada tanto em vendas online quanto em vendas físicas, sendo muito fácil de acessar.

Nos dois primeiros meses de 2021, por exemplo, houve um aumento de 215% na comparação anual, de acordo com um estudo da Adobe Analytics, e pôde-se observar que os consumidores que utilizam este serviço estão ampliando seu ticket de compra em até 18%.

Todas estas razões são vantajosas para dar uma chance a este produto dentro dos canais digitais dos bancos.

BENEFÍCIOS PARA O USUÁRIO BNPL

Comprar agora, pagar depois’ está dando aos compradores a oportunidade de aproveitar os negócios mesmo quando eles não têm dinheiro em caixa, oferecendo-lhes um meio de financiamento de acesso rápido.

Neste sentido, também permitem aos clientes que não possuem cartões de crédito -ou mesmo contas bancárias- o acesso à venda a prestações. A plataforma Kueski Pay da BNPL, no México, por exemplo, permite que os clientes façam pagamentos em dinheiro nas lojas de conveniência da Oxxo.

É também uma forma de alcançar as gerações mais jovens, como millennials ou centennials, que tendem a ser um pouco relutantes aos produtos de crédito tradicionais e cautelosos com seus gastos, como resultado de sua experiência com a crise financeira de 2008 e, mais recentemente, das dificuldades econômicas resultantes dos confinamentos da COVID-19.

De fato, 75% dos usuários do BNPL nos EUA em 2021 pertenciam a essas populações, de acordo com uma pesquisa da Insider Intelligence.

Nesta linha, a clareza deve ser uma qualidade considerada ao implantar soluções BNPL em canais digitais. Os aplicativos e as carteiras devem exibir facilmente as parcelas divididas, o valor total da compra, quanto já foi pago e quanto o usuário ainda tem a pagar, destacando as próximas datas de pagamento e até mesmo quantos acordos BNPL o usuário tem.

Outra razão pela qual este formato de crédito está decolando é porque, ao financiar, geralmente, pequenas quantias, o usuário não requer um grande histórico financeiro prévio para se qualificar.

As baixas pontuações de crédito, geralmente, têm desencorajado as compras a prazo nas cadeias de varejo, atacado e comércio eletrônico, mas o BNPL não requer classificações premium.

Outro benefício dessas plataformas é que elas oferecem promoções aos consumidores que as utilizam em comerciantes afiliados.

COMO O MODELO BNPL PODE SER ABORDADO A PARTIR DO SETOR BANCÁRIO?

No ambiente bancário, o modelo BNPL está lutando com  o cartão de crédito. Nos Estados Unidos, nos últimos dois anos, os bancos perderam entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões em receita anual para as fintechs que oferecem produtos BNPL, de acordo com o estudo da McKinsey Consumer Lending Pools.

As plataformas que oferecem este produto desenvolveram um modelo para monetizar não através de taxas de usuário e juros, mas cobrando uma taxa aos comerciantes para cada pagamento que é diferido. Eles pagam isso em troca de melhorar suas taxas de conversão, oferecendo um novo método de pagamento aos clientes.

É um modelo 100% digital em linha com as necessidades do imediatismo, que complementa o fluxo de compras e a experiência do usuário.

As fintechs foram as primeiras a digitalizarem estes pagamentos em prestações, mas os bancos ainda têm tempo para abordar a tendência, graças a algumas vantagens que poderiam posicioná-los à frente de novos concorrentes.

Ao escolher um produto de crédito de curto prazo, os consumidores esperam ter a capacidade de espaçar os pagamentos, ou seja, eles estão procurando opções menos rígidas, e os bancos podem oferecê-las por meio desta tendência.

Outra via de competição para os bancos é a criação de aplicações de compras integradas. No setor, este caminho pode ser semelhante à criação de um super aplicativo com opções BNPL, permitindo que o banco participe de toda a cadeia de serviços, desde as compras até o envio  e o financiamento.

Naturalmente, a flexibilidade das prestações e das taxas de juros será uma vantagem em todo o processo.

Além disso, com esta prática de aplicação integrada, os bancos também alavancam efetivamente sua capacidade de gerar tráfego e fidelidade dos clientes, ao mesmo tempo em que aumentam o valor médio de compra de seus parceiros comerciais.

E aqui também os bancos têm outra oportunidade de se diferenciar de seus concorrentes. Especialistas alertaram sobre os riscos de oferecer múltiplos contratos BNPL ao mesmo usuário, levando ao endividamento descontrolado, pois, ao dividir as contas em partes menores, eles podem perceber -erroneamente- que os preços são mais baratos.

Neste sentido, os bancos podem ser mais astutos que seus pares e avisar sobre um montante máximo de gastos de acordo com a renda média de cada usuário. Além disso, a fim de não colocar o cliente em débito sobre sua capacidade, os bancos também podem optar por alertas de pagamento antecipado a fim de evitar encargos de pagamentos atrasados e repercussões negativas em seus relatórios de crédito.

Em resumo, os volumes de crédito originados no momento da venda estão acelerando e há muita concorrência ao redor. Os bancos têm as ferramentas para se juntarem à modernização dos produtos de crédito, acompanhando o cliente no momento da compra e fornecendo opções de pagamento que se adequam às suas necessidades.

Andy Tran